Se tem algo que peço a Deus, é que nunca me esqueça dos pais, filhos, netos e avós que ganhei (ou adquiri!) neste trecho que vida (ainda que parcial). Nada tem a ver com isso os os parentes reais, dos quais esquecimento é um verbo totalmente desconexo, inaplicável.
Voltando ao vocabulário possível, tanto foi feito e pouco foi percebido. Em um dos meus últimos cartões, escrevi: “Obrigada por fazer parte da lista imensa de pessoas para as quais devo muito.” O crítico neste ponto é que este é o tipo de gente que só faz seu saldo devedor aumentar, por uma série de motivos que a terra não entende mas que tudo que está perto do céu compreende perfeitamente.
Existem favores, pedidos, doações pessoais pequenas que se fazem no dia-a-dia (qualquer professor de graduação colocaria no final desta frase “...no sentido do bem estar comum”). Mas existem favores e favores, e existe o que podemos chamar de obrigação. Favor é simples, ato de duração já estimada como curta e sobre o qual não há grande discussão entre fazer ou não fazer, é fazer e pronto. A discussão mental sobre fazer ou não duraria mais do que o próprio realizar da ação.
Acontece que a obrigação é muito mais contextual, é uma característica daquele que acaba por fazer o outro obrigado. Brinco novamente, e proposital, com o paradigma do verbo obrigar.
A teoria mais aceita diz que o obrigado originou-se do verbo obrigar, no qual o outro sente-se obrigado a retribuir. Aí, por favor, eu gostaria muito de levantar a mão neste ponto...
“E se, simplesmente, não for possível retribuir?”
Algumas vezes não é possível retribuir. Para estes assuntos, não há moeda de troca. Tenho uma lista de pessoas as quais devo tanto e tão pouco paguei. Pessoas que, apesar do contexto, do incentivo, da vontade, me falaram mais verdade do que sabiam e muito mais do que podiam. Me deram a escolha, me ensinaram lições de avô e pequenas sutilezas.
É nestas horas que digo. Não há forma de pagamento. É uma obrigação constante, sinônimo do laço afetivo.
Certa vez, ouvi “Ao ouvir obrigada, responda – Sei que você faria o mesmo por mim”. É incrível como a gente se rodeia de abobrinhas. O autor desta frase não entenderia lhufas do significado que proponho aqui. Peço desculpas. Uma amiga já diz: “A gente espera, espera, e tudo o que acontece é que você fica velho.”
Faz parte de mim trocar obrigações por laços. É da natureza humana não poder pagar pelo que os outros já fizeram por você, pelos seus ensinamentos ou doações numa hora crítica.
Nada me tira da cabeça. Se houvesse pagamento, o dinheiro, assim como o homem,
havia de ter sido gerado, não criado.
Existem tantas limitações na nossa cabeça vindas dos verbos financeiros pagar, obrigar, dever, ganhar...Apenas aceito o fato indiscutível de dever eternamente a pessoas maravilhosas que se dedicaram tanto aos laços, que sobrepuseram os motivos.
É uma forma mais sutil e sincera de dizer...Obrigada.
By Gi Murara